Que Horas Ela Volta? - Cine Tchelo

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Que Horas Ela Volta?


Uma dos objetivos do cinema é que o expectador embarque na história do filme e, por algumas horas, se desconecte de sua vida ordinária e contemple o fantasioso. Agora, quando um filme nos retira da realidade e nos apresenta, com delicadeza e sensibilidade, como essa própria realidade funciona mas com um olhar não convencional, é uma das experiencias cinematográficas mais satisfatórias que podemos ter. 

Val (Regina Casé) é uma imigrante típica do nordeste brasileiro que vem a São Paulo para tentar uma vida melhor. Há anos ela trabalha como empregada doméstica de uma família rica paulistana onde, além de fazer os afazeres de casa, é responsável por criar desde pequeno o jovem Fabinho (Michel Joelsa). Depois de muitos anos longe de sua família, Val recebe a visita da filha Jéssica (Camila Márdila) que veio a São Paulo para prestar vestibular. Contudo, a chegada de Jéssica vai mudar de uma vez por todas a relação dessa família.

A história de "Que horas ela volta?" se torna tão singela, tão íntima, pois é algo que acontece no dia-a-dia de milhares de famílias no Brasil. Os pais modernos, ausentes, que tem de trabalhar e, por vezes, esquecem das obrigações familiares. Aí é que entra a empregada doméstica, há anos fazendo parte da família, e que fica responsável por criar os filhos das famílias ricas. 

Mas se por um lado essa relação é tão comum na sociedade de hoje esquecemos do quão hipócrita essa relação pode parecer. Pontos para a diretora Anna Muylaert que coloca o dedo na ferida, mas de forma delicada e com muito humor. A linguagem do filme é tão trivial que não é difícil imaginar que estamos na mesma cozinha, na mesma sala ou no mesmo ambiente que aquela família.

Embora a narrativa seja ótima, nada disso seria possível sem a atuação na medida de Regina Casé. Tenho minhas restrições com ela como pessoa e apresentadora. Mas, mesmo com alguma rusga que você, assim como eu, possa ter, é impossível não aplaudir a atuação de Casé. Ela está absolutamente à vontade no papel e sintetiza milhões de mulheres do nosso país que tem esse mesmo viés. Ela consegue passar emoção, submissão, garra e coragem. Atuação impecável.

"Que horas ela volta?" é um filme que deve ser visto. Simples, engraçado e provocativo no tom certo. O filme praticamente não tem trilha sonora e talvez isso seja o único ponto negativo. Ainda assim, "Que horas ela volta?" foi premiado em diversos festivais internacionais e pode concorrer ao Oscar do ano que vem. Merecido!

NOTA: 10 (mergulhos na piscina)



2 comentários:

  1. Excelente abordagem, Marcelo. Fui ao filme e, sentindo-me próximo de sua temática - sou pernambucano e fiz trajetória semelhante à de Val - achei o viés encontrado pela Anna de muita originalidade. Comentei: é a quinta geração de nordestinos que aqui chega e, agora, com novas condições de se impor...Valeu!

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  2. Ah, o codinome Pernambuco é meu: seu colega Joaquim Macêdo Junior

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