janeiro 2019 - Cine Tchelo

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Aquaman


Apesar da qualidade de alguns filmes da DC serem bem questionáveis, como foi o caso de Liga da Justiça e Esquadrão Suicida, é inegável que seus filmes são grandes sucessos de bilheteria. Muitos deles, inclusive, ultrapassam o bilhão de dólares nas bilheterias mundias. Esse é o caso de Aquaman, que, se por um lado a crítica foi meio relutante quanto a sua qualidade, o público geral abraçou a ideia e adorou o filme de James Wan. 

A trama conta a história de Arthur Curry (Jason Momoa), um metade humano, metade atlantis, que, com seus poderes especiais, ainda carrega o dilema entre aproveitar sua vida terrena e ajudar os humanos como um super heroi. Enquanto isso, no mundo subaquático, seu irmão Orm (Patrick Wilson) tenta dominar os sete mares e se tornar o mestre dos oceanos. Cabe a Curry assumir definitivamente sua jornada para evitar uma guerra entre Atlantis e humanas e se tornar o imbatível Aquaman.

A melhor decisão da DC para este filme difícil foi entregar a franquia nas mãos de James Wan. O talentoso diretor é conhecido por extrair muito de poucos recursos, como foi o caso de Invocação do Mal e Jogos Mortais, filmes de baixo orçamento que faturaram milhões. Entretanto, o diretor também mostrou seu talento tendo em mãos grandes orçamentos, como em Velozes e Furiosos e agora em Aquaman. Aqui podemos ver, mais uma vez, sua grande habilidade em filmar cenas de ação. Suas câmeras ágeis aceleram e desaceleram nos momentos exatos durante a porradaria. Além disso, a equipe de Wan foi muito criativa ao criar todo um universo marinho, muito colorido, rico em diversidades e extremamente difícil de ser filmado.

Outro ponto positivo (e não poderia ser diferente) é a atuação de Momoa. O ator, apesar de não parecer muito com o perfil do herói clássico dos quadrinhos, convence completamente com seu estilo fanfarrão e divertido. Assim como é Gal Gadot em Mulher Maravilha, fica difícil a partir de agora imaginar outro ator para ser Aquaman que não Momoa. Apesar da qualidade dramática não ser seu forte, no fundo, o personagem não precisou exigir tanto. A trama presou mais por seus músculos e carisma, e isso Momoa tem de sobra. Outro destaque fica por conta de Patrick Wilson que, apesar de estar um pouco caricato, entrega um vilão clássico de quadrinhos para as telas. 

A parte negativa do filme fica por conta do roteiro em si. A história gira em torno de clichês que estamos cansados de ver. O longa parece ser colagens de várias outros filmes e quadrinhos de heróis condensados em pouco mais de duas horas. Se você for parar para analisar, o enredo é extremamente simples e poderia ser resolvido em pouco mais de uma hora. O tempo que temos de sobra seria para desenvolver as questões entre os personagens e o "romance" entre Curry e Mera. Mas isso serve apenas de trampolim para a próxima cena de ação que, literalmente, explode na sua frente. 

Aquaman é um filme divertido e despretensioso. As cenas de ação são muito bem filmadas e a criação do universo marinho é colorida e dinâmica. Muito diferente do que vimos até agora nos filmes da DC. Já a trama é simples e rasa. Mas se o publico espera mais diversão do que reflexão, este é o filme ideal. 

NOTA: 7,0






quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Bohemian Rhapsody


Contar a biografia no cinema de uma personalidade não é uma tarefa fácil. Ao se tratar de uma das maiores bandas de rock de todos os tempos e com o front man mais emblemático da música, o buraco fica ainda mais embaixo. Essa foi a tarefa do diretor Bryan Singer, que, apesar de uma produção super conturbada, reuniu um elenco competente e a auditoria dos próprios músicos remanescentes do Queen. 

Aqui nós conhecemos um pouco mais da história de vida de Freddie Mercury (Rami Malek). A trajetória apresenta diversos pontos de sua vida e carreira. Desde os passos iniciais como músico, passando pela primeira formação do Queen até chegar no estrelato como um ícone do rock. E meio a isso, vemos alegorias de como os grandes sucessos do Queen foram compostos por Mercury, Brian May e companhia, as brigas dos integrantes, as paixões e, claro, os exageros e megalomania de Mercury.

A produção de "Bohemian Rhapsody" foi conturbada desde sua concepção. Com mudanças e mais mudanças no roteiro ao passar dos anos, muitos fãs mais extremistas reclamaram da "suavizada" na história de seus personagens e das incongruências dos eventos históricos narrados no filme. Mas a maior mancha na produção do longo foi com certeza as acusações de assédio do diretor Bryan Singer. 

Mas, e o filme? Suspendendo algumas crenças e ideologias, a obra em si é divertida. É inegável que as músicas do Queen, por si só, enaltecem qualquer obra. Reviver os grandes momentos da banda, quando ela esteve em seu auge nos anos 70 e 80, é delicioso. Nesse sentido, a recriação dos figurino, cenários, fotografia... tudo funciona em harmonia. Além disso, o destaque fica por conta das atuações. Os atores escolhidos para viverem os integrantes do Queen estão impecável. Rami Malek entrega uma atuação carinhosa, dedicada e praticamente irretocável. Apesar do ator não cantar em cena (ainda mais sendo quase impossível reproduzir o alcance de Mercury), quase não notamos. 

"Bohemian Rhapsody" peca pela falta de ousadia e alguns erros históricos. Mas a música do Queen por si é tão envolvente que dificilmente não emocionará até aquele que não é fã da banda. Aqueles então que já são iniciados no rock, e adoram as músicas de Mercury e companhia, com certeza terão uma catarse. 

NOTA: 7,5


segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Black Mirror: Bandersnatch


"Isso é muito Black Mirror". Quem não cansou de ouvir/ler essa frase por aí na internet para referenciar algum produto que nos faz sair da caixinha? Algo de explodir nossa cabeça? Pois bem, a série de sucesso da Netflix surpreende a todos e lança um inesperado filme na plataforma online. Mas ,mais do que um filme comum, "Bandersnatch" é um produto interativo onde o telespectador interfere diretamente nas ações do personagem através do controle da televisão. Será que essa experiência ficou realmente inovadora? 

A premissa de "Bandersnatch", apesar dinâmica e interativa, é bem simples. O filme é uma metáfora de Alice no país das maravilhas e conta a história de um jovem programador que tem o sonho de produzir e vender o seu jogo de video game. Aos poucos, conforme nós, expectadores, fazemos nossas escolhas sobre o personagem, o protagonista passa a desconfiar de que sua vida não é nada o que parece, questionando assim seu livre arbítrio.

No sentido narrativo, como história a ser contada,"Bandersnatch" nada mais é do que um pastiche de dezenas de outras histórias que já conhecemos. "Matrix", "Alice" e até outros produtos de Black Mirror... No frigir dos ovos a história é deixada de lado e as atuações são primárias. A grande pegada de "Bandersnatch" é discutir o que é real e o que é ficção em nossas bolhas. Será que escolhemos mesmo nossos filmes e séries na Netflix conforme nossas preferências ou não saímos do cercadinho criado pelo canal de Streaming?

"Bandersnatch" definitivamente não é um produtor revolucionário. Mesclando game e filme, esta premissa já foi vista outras vezes de maneiras similares. Ele não é nem o melhor episódio de Black Mirror. Contudo, para o formato que foi criado, a peça consegue entreter e fazer com que o expectador trabalhe junto ao personagem em sua saga.

NOTA: 6


terça-feira, 15 de janeiro de 2019

O Primeiro Homem


Foi dada a largada da corrido pelo Oscar 2019. Diversas outras premiações já estão acontecendo ao redor do mundo e podemos ter uma noção do quem vencerás as principais estatuetas da premiação de Hollywood. Nossa primeira análise será sobre "O Primeiro Homem", filme cuja história, apesar de já ter sido contada de outras formas, é ditada pelo ponto de vista particular e talentoso do diretor Damien Chazelle. 

Neil Armstrong (Ryean Gosling) é um astronauta norte-americano que, obcecado pela conquista e, especialmente, pela corrida espacial que levará o homem a pisar na lua, sofre com problemas familiares após a morte de sua filha caçula. Sendo um dos maiores talentos da NASA, Armstrong passa a ser referência do próximo passo do homem na ciência, mas, por outro lado, tem de lidar com seus demônios internos e familiares antes de entrar para a história da humanidade. 

Como dito antes, a história de "O Primeiro Homem" já foi contada outras dezenas de vezes em diversas plataformas. Livros, filmes, documentários. Mais do que isso: a chegada do homem a lua foi transmitida ao vivo para todo o mundo em 1969. Então o que este filme tem de atraente? 

O diretor Damien Chazelle é um virtuoso. Com apenas 33 anos de idade, ele é considerado um dos maiores talentos de Hollywood e ganhou diversos prêmios com seus filmes anteriores: "Wiplash" e "La La Land". Em "O Primeiro Homem" ele mantém traz o ritmo de seus filmes anteriores, só que dessa vez fecha ainda mais o prisma no protagonista. Se estamos cansados de saber como foi a viagem do homem a lua, agora temos o ponto de vista singular de Neil. A atuação reservada de Gosling reflete essa obsessão de Armstrong e sua tristeza velada.

"O Primeiro Homem" talvez tenha a cena mais visceral do cinema até hoje ao reproduzir o voo da Apollo 11. É um filme mais lento, intimista e fechado. Talvez esse ritmo possa incomodar aqueles mais ansiosos. Mas quem gosta de uma boa história, será muito bem recompensado no final. 

NOTA: 7,5


sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Roma


Existe um paradoxo nos serviços de streaming de filmes e séries como a Netflix, por exemplo. Se por um lado há uma democratização de centenas de conteúdos para diferentes gostos e públicos, por outro algumas obras maravilhosas ficam privadas de serem vistas no cinema. Este é o caso do novo filme de Alfonso Cuarón. "Roma" é uma obra prima do mais fino do cinema e que infelizmente não poderemos ver na telona.

Durante a década de 70 na Cidade do México, as famílias de classe média tentam tocar suas vidas da melhor maneira possível: se amando, brigando, traindo, se emocionando. Em uma dessas famílias típicas, vive Cleo (Yalitza Aparicio), uma jovem empregada doméstica que, além de cuidar de toda casa, ajuda na criação das quatro crianças da família. E é sob o olhar de Cleo que conhecemos um pouco da vida da classe média do México que estava prestes a entrar em um terrível período de repressão política. 

Alfonso Cuarón é um daqueles raros diretores em que apostamos todas as nossas fichas em seus lançamentos. Desde que vi o alucinante "Filhos da Esperança (2006)", minha atenção para sua obra só aumentou. Tanto que em "Gravidade (2013)" o diretor foi exaltado com diversos prêmios ao redor do mundo do cinema.

Mas é em "Roma" que Cuarón alcança sua obra prima. Contando uma história através de um prima mais intimista, praticamente autoral, ele se exibe e brinca com nossas sensações ao invocar tudo o que o cinema pode oferecer ao expectador. Tensão, emoção, humor. Tudo é apresentado de forma lenta, quase morosa, mas que trabalha de forma precisa em favor a trama. A fotografia é uma das coisas mais lindas do cinema (da Netflix com certeza é) e a reconstrução do México dos anos 70 é tão sublime que, para nós latinos, nos faz entrar em uma máquina do tempo diretamente para nossa infância.

Apesar do primor técnico, "Roma" só funciona devido a seus personagens. E isso graças a Yalitza Aparicio. A atriz oferece uma interpretação delicada e ingênua que nos ganha em questão de minutos. Acompanhar a trama através de seus olhos, pequenos, inquietos e singelos, é muito reconfortante. Poético, sincero e trivial. 

"Roma" é um filme autoral e quase autobiográfico. A história é contada de forma lenta e isso pode afastar aqueles menos avisados. Mas se você é daqueles que não tem pressa em degustar o fino da sétima arte, aqui está a melhor opção possível. 

Nota: 10