setembro 2015 - Cine Tchelo

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Entre Abelhas


Em uma realidade em que o cinema brasileiro é recheado 90% por filmes de humor de qualidade bem duvidosa (para não dizer porcarias sem sentido mesmo), quando algo aparece fugindo desse paradigma já é de se aplaudir. E, por incrível que pareça, quem tenta mostrar algo diferente é justamente a turma do "Porta dos Fundos", os quais se encaixam no comentário acima sobre o humor. "Entre Abelhas" tem, sim, humor, mas não se engane. O buraco é mais embaixo.

Bruno (Fábio Porchat) se vê em um dilema em sua vida ao passar por uma separação dolorosa com sua mulher. Ao poucos a vida de Bruno vai perdendo o sentido e ele passa a não mais enxergar as pessoas. Primeiro de maneira figurativa e depois, literalmente, as pessoas começam a desaparecer. Então, ele precisa correr contra o tempo para tentar descobrir qual é o problema antes que seja tarde demais.

O diretor Ian SBF é um dos responsáveis pela criação do quadro de humor "Porta dos Fundos", um dos mais famosos do YouTube. Mas em "Entre Abelhas" ele navega por outros mares. Aqui, o drama e os suspense conversam com um tipo de humor diferente do apresentado em seus vídeos na internet. Apesar de usar a mesma equipe do "Porta", a cara para este filme é algo mais contemplativo.

O difícil para o espectador é comprar a ideia logo de cara. E isso se dá justamente pelo passado dos atores e da equipe de produção. É difícil olhar para Porchat e não esperar alguma gritaria ou uma piada fora de hora. Mas aqui seu personagem é a antítese disso. Beirando a melancolia, o personagem de Porchat é a síntese de um homem a beira do colapso quando vê seu mundo de desvair aos poucos. Surpreendentemente o ator até que segura bem as pontas.

"Entre Abelhas" é um filme que tenta ousar num mercado cheio de filmes de humor de baixa qualidade. Apesar de parecer um pouco arrastado e repetitivo em certo momento, ele tem ótimas referências e ganha pontos pela ousadia. Talvez com uma equipe mais expressiva o filme causaria mais barulho.

NOTA: 7,5 (Cadeiras de puteiro)


terça-feira, 29 de setembro de 2015

Que Horas Ela Volta?


Uma dos objetivos do cinema é que o expectador embarque na história do filme e, por algumas horas, se desconecte de sua vida ordinária e contemple o fantasioso. Agora, quando um filme nos retira da realidade e nos apresenta, com delicadeza e sensibilidade, como essa própria realidade funciona mas com um olhar não convencional, é uma das experiencias cinematográficas mais satisfatórias que podemos ter. 

Val (Regina Casé) é uma imigrante típica do nordeste brasileiro que vem a São Paulo para tentar uma vida melhor. Há anos ela trabalha como empregada doméstica de uma família rica paulistana onde, além de fazer os afazeres de casa, é responsável por criar desde pequeno o jovem Fabinho (Michel Joelsa). Depois de muitos anos longe de sua família, Val recebe a visita da filha Jéssica (Camila Márdila) que veio a São Paulo para prestar vestibular. Contudo, a chegada de Jéssica vai mudar de uma vez por todas a relação dessa família.

A história de "Que horas ela volta?" se torna tão singela, tão íntima, pois é algo que acontece no dia-a-dia de milhares de famílias no Brasil. Os pais modernos, ausentes, que tem de trabalhar e, por vezes, esquecem das obrigações familiares. Aí é que entra a empregada doméstica, há anos fazendo parte da família, e que fica responsável por criar os filhos das famílias ricas. 

Mas se por um lado essa relação é tão comum na sociedade de hoje esquecemos do quão hipócrita essa relação pode parecer. Pontos para a diretora Anna Muylaert que coloca o dedo na ferida, mas de forma delicada e com muito humor. A linguagem do filme é tão trivial que não é difícil imaginar que estamos na mesma cozinha, na mesma sala ou no mesmo ambiente que aquela família.

Embora a narrativa seja ótima, nada disso seria possível sem a atuação na medida de Regina Casé. Tenho minhas restrições com ela como pessoa e apresentadora. Mas, mesmo com alguma rusga que você, assim como eu, possa ter, é impossível não aplaudir a atuação de Casé. Ela está absolutamente à vontade no papel e sintetiza milhões de mulheres do nosso país que tem esse mesmo viés. Ela consegue passar emoção, submissão, garra e coragem. Atuação impecável.

"Que horas ela volta?" é um filme que deve ser visto. Simples, engraçado e provocativo no tom certo. O filme praticamente não tem trilha sonora e talvez isso seja o único ponto negativo. Ainda assim, "Que horas ela volta?" foi premiado em diversos festivais internacionais e pode concorrer ao Oscar do ano que vem. Merecido!

NOTA: 10 (mergulhos na piscina)



segunda-feira, 28 de setembro de 2015

American Ultra


Vez ou outra, Hollywood nos oferece filmes que são, na verdade, uma paródia de si mesma e do povo norteamericano. Esses besteirois, geralmente, ou são muito ruins ou acabam sendo geniais, como "Superbad" e "Kickass". "American Ultra" é mais um filme desse gênero, mas que repousa no meio termo entre momentos engraçados e outros vexatórios. Confira.

Mike (Jesse Eisenberg) é um maconheiro preguiçoso e desajeitado que tenta criar coragem para pedir sua namorada Phoebe (Kristen Stewart) em casamento. Certo dia, quase encerrando o expediente em seu trabalho em uma loja de conveniência, Mike recebe a visita de dois bandidos. De repente, se vendo em perigo, ele usa de habilidades antes desconhecidas para matar os ladrões. A partir daí, Mike vira alvo da CIA e de um misterioso projeto do governo.

O diretor Nima Nourizadeh parece estar se especializando neste gênero. Seu primeiro longa, "Projeto X", surpreendeu com cenas absurdas e engraçadas. Aqui em "American Ultra" ele utiliza um pouco mais dos recursos financeiros que Hollywood lhe proporcionou. Mas, se por um lado ele ganha em estilo, elenco e efeitos especiais, por outro ele perde com um roteiro bem fraco e atuações tímidas dos protagonistas. 

Eu ainda não sei se a escalação de Jesse e Kristen foi um acerto ou um tiro no pé. Os dois atores não são lá muito conhecidos por suas expressões. Eles parecem fazer a mesma cara em qualquer situação. Mas, dentro do contexto de "American Ultra", onde os personagens são dois maconheiros abobalhados, a falta de expressão pode até ser considerada como um recurso narrativo. Mas isso, claro, com muita boa vontade nossa.

"American Ultra" é um besteirol cheio de ação e porradaria. Um filme pra se desligar o cérebro e curtir. O problema é que ele não rende tanta boas risadas assim. Talvez um roteiro mais apurado ou uma dupla de atores mais carismática poderia render um pouco mais de diversão.

NOTA: 6,5 (Ataques da CIA)


quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Nocaute


Nos filmes de boxe, e de esporte num geral, fica difícil fugir de alguns clichês do gênero. Histórias de superação, emoção, personagem desacreditado, muitas vezes marginalizado, perdas e vitórias. Mesmo com essa premissa, alguns diretores conseguem utilizar essa fórmula garantida e se dar bem. "Southpaw" não ousa em momento algum. Porém, sabe utilizar bem os clichês do gênero e apresenta mais uma atuação espetacular de Gyllenhaal.

Billy "The Great" Hope (Jake Gyllenhaal) é um campeão do boxe conhecido pelo seu temperamento complicado tanto dentro quanto fora dos ringues. Hope tem uma peculiaridade dentro dos corners que é a de apanhar muito durante a luta antes de se superar. Contudo, após passar por uma tragédia em sua vida pessoal, Billy perde toda a esperança e tem que dar a volta por cima mais uma vez para se tornar campeão e ganhar o amor de sua filha.

O próprio parágrafo acima já ressalta os clichês de "Nocaute". É a velha história do campeão indomável e egocêntrico que tem que levar uma surra da vida para poder dar valor ao amor da família. Nada do que já não vimos em outros filmes do gênero. O diretor Antoo ine Fuqua não se faz de rogado e abusa das referências de filmes como "Touro Indomável" e "Rocky". Entretanto, Fuqua usa a fórmula para nos dar um bom produto. Apesar do roteiro previsível, acredito que os fãs do gênero não buscam nada diferente disso.

O que chama a atenção mesmo em "Nocaute" é a atuação de Gyllenhaal. Mais uma vez o ator se supera e apresenta um personagem destruído mentalmente, apesar de seu físico de guerreiro. O ator se dedicou como sempre e já é um dos possíveis indicados ao Oscar do próximo ano. A personagem vivida por Rachel McAdams é essencial para a trama e a atriz está excelente como uma mãe e esposa que é o pilar de uma família voltada para o sucesso do lutador.

"Nocaute" é um filme que usa e abusa dos clichês dos filmes de boxe. Para os fãs do gênero é um prato cheio. A atuação de Gyllenhaal está excelente, assim como a trilha sonora e as lutas (que não são muitas). Talvez o diretor pudesse ousar um pouco mais, apresentando novos elementos à narrativa. Contudo, "Nocaute" é um bom drama e que vale a espiada.

NOTA: 7,5 (Uppercut)


quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Mr. Robot


É claro que o foco hoje em dia para os produtores, roteiristas e atores é o mercado televisivo. As séries de TV se tornaram vedete, haja vista as audiências das grandes séries, como Game of Thrones e The Walking Dead. Dessa forma, as equipes estão com certa liberdade criativa resultando em produtos bem mais ousados do que os apresentados no cinema. "Mr. Robot" é um desses casos de série cheia de experimentações, mas sem deixar algumas fórmulas nerd de fora. O resultado? Uma das melhores séries desde Breaking Bad.

Elliot (Rami Malek) é um jovem programador que trabalha em uma empresa de segurança virtual como engenheiro. Porém, durante a noite, Elliot é uma espécie de vigilante, um super herói do mundo virtual, que hackeia tudo o que lhe interessa. Apesar da genialidade, Elliot sofre com alguns problemas mentais, o que são agravados pelo seu vício em drogas. Quando Elliot conhece o líder de uma equipe de hackers, Mr. Robot (Cristian Slater), ele encontra a motivação necessária para por em prática seus planos nada modestos: destruir as grandes corporações e salvar a humanidade. 

Em primeiro lugar é importante salientar que Mr. Robot é uma série que requer muita atenção. Desde o primeiro episódio, diversos elementos chave para a narrativa são inseridos. Esta é, inclusive, uma das partes mais interessantes da série junto com as inúmeras referências nerds inseridas. Em alguns momentos a série parece lenta e os diálogos dispersos. Mas, não se engane. Eu mesmo caí na armadilha de mudar meu foco de atenção e perdi alguns detalhes essenciais. 

É difícil falar sobre a história de Mr. Robot sem soltar nenhum spoiler. Nós navegamos pelas situações através da ótica e narração do protagonista Elliot. Contudo, a quebra da quarta parede pelo personagem, a trilha sonora riquíssima, os enquadramentos de câmera e a edição excelente, nos seduz para outros elementos narrativos assim como a mente confusa de Elliot se dá. 

Mr. Robot é uma série extremamente moderna. As situações e referências atuais tornam a série como se fosse algo presente, de hoje. Ela usa personagens da vida real e casos contemporâneos. Tanto que os episódios finais da série foram adiados pois uma das cenas era muito parecida com aquele assassinatos dos jornalistas ao vivo nos EUA.

Para quem aprecia um produto televisivo fora do convencional, não necessariamente fácil de digerir e que necessita de atenção e referência nerd, Mr. Robot é a série ideal. Os fãs de "Clube da Luta" e "Matrix" então vão guardar a série no coração. Mr. Robot encerra a primeira temporada deixando mais perguntas que resposta. Contudo, ela deixa o gosto da curiosidade e a sensação de quero mais.


terça-feira, 8 de setembro de 2015

Narcos


A Netflix se tornou para muitos brasileiros um serviço de utilidade básica para o dia a dia. Assim como as contas de água, luz e internet, a Netflix está lá, todos os meses, debitando na fatura do cartão de crédito. Isso por que a qualidade das sérias da produtora está cada vez melhor e agradando gradativamente o público brasileiro. Agora, com "Narcos", série que, apesar de não ser brazuca, possuí diversos elementos e material humano tupiniquim, a Netflix caí de vez no gosto nacional e ainda promete mais produto nacional no futuro.

Em "Narcos", acompanhamos a trajetória de vida e poder do narcotraficante colombiano Pablo Escobar (Wagner Moura). Figura icônica do cenário latino americano, e mundial, Escobar foi, especialmente na década de 80, o homem mais rico do mundo. Foi, inclusive, um mafioso bem mais perigoso e influente que Al Capone, na América. Na série, temos o ponto de vista de dois agentes norte americanos da DEA, serviço anti drogas dos EUA, que tem a dura missão de capturar Escobar e acabar com todo o Cartel de Medelin.

Apesar de contar com Wagner Moura como protagonista e José Padilha dirigindo os dois primeiros episódios, "Narcos" não é uma série brasileira. Bom, pelo menos não no papel. Escrita por Chris Brancatto, a série tem vários elementos que são muito familiares a nós. A narração por todos os episódios, a fotografia do brasileiro Lula Carvalho, a trilha sonora assinada por Rodrigo Amarante, as referências a "Tropa de Elite" e "Cidade de Deus". Além disso, os diálogos 90% falados em espanhol é algo que nos aproxima. E, a língua espanhola, apesar de bem vinda, causou certa polêmica.

Antes de qualquer coisa é preciso dizer que a caracterização de Wagner Moura para o personagem está fantástica. Seu estilo de atuação, com os "tiques" característicos, casaram muito bem. O espanhol do ator é bom? Não, nem um pouco. Fica bem destoante principalmente quando divide a cena com outros atores de língua espanhola. Contudo, com o passar dos episódios, esse desconforto aos ouvidos passa conforme vamos nos entregando à história.

Os outros personagens da série estão bem, mas o carisma deles em cena não chega aos pés de Escobar. Talvez seja pela nossa proximidade com Moura, ou mesmo por sua grande atuação, mas, por exemplo, mesmo a série tendo o agente Steve Murphy (Boy Holbrook) como protagonista da série, queremos sempre mais de Escobar em cena.

"Narcos" começa de forma frenética, apresentando personagens, flashbacks, tiroteios e logo dizendo para que veio. Principalmente nos episódios dirigidos por Padilha. Depois disso, ela dá uma esfriada, adentrando mais nos dilemas e no jogo de gato e rato entra a polícia e o traficante. A série tem muita violência, sexo, drogas e corrupção. Se essa não é a sua praia, esteja avisado. Agora, para quem gosta de uma boa séria policial, com humor, violência e excelente fotografia, "Narcos" é para você.