agosto 2018 - Cine Tchelo

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Objetos Cortantes



A literatura contemporânea, especialmente os principais best sellers do mercado, é um prato cheio para a produção das séries de TV e para o cinema. Taí Stephen King que não me deixa mentir, cuja obra foi e ainda é adaptada a exaustão. "Sharp Objects" é um drama baseado no livro de Gillian Flynn e recebe a assinatura HBO de se contar uma história. O que isso significa? Um texto bem apurado, fotografia quase impecável e atuações que carregam a trama a todo momento. 

"Objetos Cortantes" conta a história de Camille Parker (Amy Adams), uma jornalista que, ao investigar uma reportagem para seu jornal, volta a sua cidade natal, aonde se afastou por anos após a morte de uma de suas irmãs mais novas. Ao chegar a cidade, Camille descobre um assassinato no qual personagens de seu passado voltam a tona e se tornam os principais suspeitos. 

A série da HBO é bem fidedigna ao livro de Flynn, inclusive na forma narrativa escolhida. Os episódios, assim como os capítulos do livro, correm bem lentamente, abusando dos detalhes nos personagens e nos conflitos psicológicos dos habitantes da pequena cidade. Esse tom melancólico, assim como a fotografia fria e a trilha sonora carregada no Led Zeppelin, são propositais para que possamos entrar no jogo. Mesmo sabendo que por vezes o jogo possa ficar entediante antes de que nossa curiosidade seja aguçada.

Para desfrutar "Objetos Cortantes" é preciso comprar a ideia. Ela demora a engrenar e as coisas ficam mais subjetivas do que expositivas na tela. Num mundo onde tudo é instantâneo, dinâmico e apressado, nem sempre as pessoas querem passar 50 minutos se atentando a detalhes. Contudo, caso você não desista nos primeiros episódios, será contemplado com uma das melhores atuações em série de TV da atualidade. Amy Adams abusa da carga dramática numa personagem destruída emocionalmente e fisicamente. Todo o elenco, de fato, causa desconforto... e isso é no bom sentido. 

"Objetos Cortantes" não é uma série fácil. Além de tratar de uma temática pesada, como depressão e assassinato (só pra citar o superficial), ela demora a pegar no tranco, apesar de ter apenas 8 episódios. Entretanto, dificilmente a HBO aposta errado e aqui temos mais um exemplo de que um bom texto, um bom elenco e uma boa produção elevam o nível da TV como temos hoje em dia. 








terça-feira, 14 de agosto de 2018

Happy!


Uma das síndromes dos novos tempos é a infindável oferta de produtos, conteúdos, objetos, o que acaba dificultando ainda mais nosso poder de escolha. Aposto que a maioria aqui passa mais tempo cavocando o catálogo da Netflix do que consumindo algum conteúdo em si. Entretanto, apesar da qualidade das séries do canal oscilar bastante, ainda encontramos surpresas agradáveis. É o caso de "Happy!", que, de tão esquisita e engraçada, vai encontrar seu público. 

"Happy!" conta a história do policial Nick Sax (Christopher Meloni). Corrupto, sacana e beberrão, Sax vira praticamente uma lenda no submundo ao sair da corporação e virar um matador de aluguel. Ele se envolve numa trama na qual um psicopata fantasiado de Papai Noel sequestra dezenas de criança, inclusive a sua filha de um relacionamento do passado. E é com a ajuda de amigo imaginário de sua filha, um unicórnio fanfarrão chamado Happy, que ele tenta resolver esse caso.

A série, baseada nos quadrinhos de Grant Morrison, foge do senso comum. Ela resolve se embrenhar pelo non sense e pelo absurdo e sua trama funciona como se fossem diversas esquetes de humor, ação e gore entrelaçadas pela linha narrativa principal. Como essa estrutura não é convencional, "Happy!" funciona mais para um nicho que aprecia esse humor do absurdo. Em alguns momentos lembra bastante os primeiros filmes do diretor Guy Ritchie, por exemplo.

Mas a série só funciona mesmo graças a Christopher Meloni. O ator está totalmente solto e parece se divertir no papel. Desbocado, sujo, corrupto... Meloni passeia no roteiro caótico, muito diferente de seus outros personagens icônicos em "Law and Order" e "Oz". 

"Happy!" é cheia de humor negro, violência e ação. A trama, em si, não apresenta nada de novo e temos, claro, a sensação de que alguns episódios servem apenas de barriga. Contudo, frente a outros produtos da própria Netflix, a série diverte sem que seja levada a sério. 


quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Tully


Não importa quanto um pai possa ser (ou parecer) presente em um processo de maternidade. Nenhum homem é capaz de entender o que uma mãe passa desde o processo de concepção de um bebê até... bem... até o resto da vida. Para que possamos entender esse processo, o diretor Jason Reitman convoca nada mais nada menos que a roteirista Diablo Cody, de Juno, e Charlize Theron, que dispensa comentários. O resultado é um dos melhores filmes de 2018 e que passou despercebido por aqui. 

Marlo (Charlize Theron) é uma mãe de dois filhos e prestes a dar a luz ao terceiro. Quando o último vem ao mundo, ela se vê completamente perdida com as infindáveis tarefas em casa para cuidar das crianças, ainda mais que seu marido, Drew (Ron Livingston), não é presente na criação dos filhos. Ao se ver no limite físico e mental, Marlo resolve contratar uma "babá norturna", a jovem Tully (Mackenzie Davis), e é nesse contraste com a juventude que Marlo irá se redescobrir como mãe e mulher.

Mais do que um filme sobre maternidade, "Tully" dá suas pinceladas em diversos temas importantes que orbitam a vida de uma mulher neste processo. Sexualidade, vaidade, depressão, a relação com os filhos, o feminismo. Tudo isso é abordado ora com humor, ora com sensibilidade e drama. Apesar da direção de Reitman ser correta, os méritos aqui são sem dúvida alguma para as mulheres. A escritora e roteirista Diablo Coby aperfeiçoa seu discurso já visto em "Juno" e "Jovem Adulta". Ela aposta na sensibilidade da mulher, mas deixando bem claro a força extra humana necessária para superar tantas barreira, tanto pessoais quanto sociais. 

Já Charlize Theron nos presenteia com uma das melhores atuações de sua carreira. Além de ter engordado quase vinte quilos para este papel (algo menor perto de sua atuação vigorosa), Theron sintetiza as agruras de ser mãe, esposa, mulher e ainda se encontrar como indivíduo. Se pelo menos ela não concorrer ao próximo Oscar de melhor atriz será um crime. 

"Tully" é um filme gigante escondido sob um lançamento discreto, especialmente no Brasil. Se por um lado nem todos vão entender todos os detalhes cruéis da maternidade, especialmente os homens, por outro as mães e mulheres serão presenteadas com um filme bonito e vigoroso.

NOTA: 9,0