novembro 2016 - Cine Tchelo

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

3%


Depois de um curta de sucesso na internet, a NetFlix, vendo o potencial para o mercado nacional, investiu e produziu a primeira série brasileira do canal. A expectativa para a ficção científica tupiniquim foi as altura e logo o hype foi estabelecido. Mas será que essa ansiedade foi justificada com um produto de entretenimento de qualidade?

Em um futuro distópico, o Brasil está separado em castas e o Continente é a parte degradada onde as pessoas vivem em condições subumanas. Contudo, quando o cidadão atinge a idade de 20 anos ele tem a chance de passar no Processo, um programa do governo para escolher os 3% de jovens excepcionais que ganham o direito de viver "do lado de lá". A promessa de uma vida melhor faz com que os jovens travem batalhas e jogos psicológicos severos. Só que as coisas não são bem o que parecem e logo esses jovens descobrirão a verdade sobre o Processo. 

A ideia de "3%", apesar de nada original, é boa e bem intencionada. Criar uma ficção científica brasileira, estilosa e bem filma é algo a se aplaudir. Entretanto, a execução da série tem uma porção de pecados, que, com olhos um pouco mais críticos, acaba baixando totalmente as expectativas de uma série nacional que revolucione o velho padrão "global". 

Existem várias referências em "3%", como "Matrix", "Elysium", "Jogos Vorazes" e, especialmente, a queridinha do momento "BlackMirror". Mas essas referências ficam numa ideia estética que não necessariamente é cumprida na telinha. Temos claramente uma boa intenção, só que mal executada. O roteiro acaba caindo em frases de efeito atrás de frases de efeito. Os clichês são usados em excesso e essa falta de profundidade cansa. Somado aos atores que, apesar de esforçados com a "causa", têm uma ar "novelão" demais para serem levados a sério. Sendo assim, fica difícil ganhar empatia. 

Em suma, "3%" é uma série bem intencionada, bonita e ousada para os padrões brasileiros. Mas que peca no excesso de clichês, frases de efeito, pouca profundidade dos personagens e num roteiro que não mostra para o que veio. São apenar 8 episódios... e isso é bom. "3%" terá seu público e deixa o gancho para uma nova temporada... caso a crítica não pegue pesado demais. 


quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Star Trek: Sem Fronteiras


O terceiro e talvez último filme da franquia "Star Trek" sob a tutela do produtor J.J.Abrams foi uma grata surpresa para os fãs dessa longa saga. Abrams foi responsável foi fazer uma revolução estética para a franquia em 2009 e hoje entrega aos fãs um caminhão de referências do próprio umbigo e do universo nerd em geral.

Kirk (Chris Pine), Spock (Zachary Quinto) e a tripulação da Enterprise continuam com a missão de desvendar os segredos do universo. Após três anos de expedição os conflitos e estreitamente das amizades caminham sobre uma linha tênue. Contudo, após um misterioso pedido de socorro de uma nave, a Enterprise cai numa emboscada de um temido vilão que pretende destruir tudo e todos. 

O diretor Justin Lin parece se divertir em "Star Trek: Sem Fronteiras". Assim como todo o elenco. E esse reflexo rebate em um terceiro filme engraçado, dinâmico e cheio de ação e aventura. Sem dúvida, esse é o filme mais divertido dos três da "nova era". Isso se dá muito pelo fato do filme anterior não ter ido muito bem nas bilheterias. Isso fez com Lin e a produção fizessem um filme para nerds e trakers. 

"Star Trek: Sem Fronteiras" serve muito bem como um filme de ação, mas com aquela cara de episódio (muito bem produzido) da própria série Jornada nas Estrelas. A representação dos planetas esta belíssima, as diferentes raças convivem ora em harmonia, ora em conflito, os personagens tem química, o humor está na dose certa. 

Em suma, "Star Trek: Sem Fronteiras" é um filme feito para fãs hardcore, mas, devido a qualidade técnica e ao carisma dos personagens vai agradar um publico que busca um filme descompromissado com humor e aventura.

NOTA: 8,0


quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Nerve


As preocupações pós-modernas a respeito da tecnologia e de como o ser humano está cada vez mais refém dos gadgets e das redes sociais é uma discussão que está em pauta no entretenimento. Basta vez o sucesso de "Black Mirror", série britânica resgatada pela NetFlix, que trata exatamente desse tema. "Nerve" surfa nessas ondas, mas com muito estilo e pouco conteúdo.

Vee (Emma Roberts) é uma típica adolescente norteamericana: bonita, tímida, impopular e que busca aceitação do outro para se ver dentro um grupo. Após uma discussão com sua melhor amigo a respeito de um aplicativo, Vee resolve entrar no "Nerve", um jogo onde cada tarefa realizada rende bônus em dinheiro e popularidade para os jogadores. As tarefas, inicialmente simples, são executadas com tranquilidade por Vee e seu novo parceiro de jogo Ian (Dave Franco). Entretanto, as coisas começam a dar errado quando as tarefas ficam cada vez mais perigosas.

Os diretores Ariel Schulman e Henry Joost dão uma visão moderna e estilosa para o filme. Apesar do tema não ser mais tão original, já reproduzido por outras dezenas de filmes e, especialmente, em séries como "Black Mirror" e "Mr. Robot", o filme tem a vantagem de ser jovem, dinâmico e ter um lindo jogo visual. Mas é só.

Apesar do tema interessante, o roteiro de "Nerve" não se arrisca e prefere o voo baixo. Dessa forma ele abandona a crítica e fica mais numa trama de ação adolescente com muita aventura e romance. A própria escolha de Emma Roberts e Dave Franco, atores conhecido mas com pouca relevância, como protagonista já mostra que o intuito do filme é mais entreter do que fazer pensar. 

"Nerve" é um filme que tem estilo e dinamismo, mas que peca por não ser criativo e ousado como poderia ser. Para que busca algo mais profundo, melhor fazer outras escolhas. Agora, quem deseja uma diversão leve esta pode ser uma boa pedida.

NOTA: 6,5


Café Society


Acredito que todos o anos, durante um bom tempo, farei, pelo menos, duas resenhas de filmes inéditos de Woody Allen. O diretor é um dos mais produtivos de Hollywood e, agora, se envereda também para o universo das séries de TV. Em "Café Society" Allen executa o mais do mesmo. Mas isso não é necessariamente ruim. Pelo contrário.

Na década de 30, Bob (Jesse Eisenberg) é um jovem que deseja ser escritor, mas não tem muitas chances em Nova York. Então ele decide se mudar para a casa de seu tio Phil (Steve Carell), um renomado e experiente produtor, em Los Angeles para emplacar sua carreira em Hollywood. Contudo, as coisas começam a virar de pernas para o ar quando Bob se apaixona pela secretária pessoal de seu tio, cuja garota também é sua amante secreta.

Ninguém pode culpar Woody Allen por não experimentar. Nos últimos anos ele tentou fugir um pouco de sua fórmula já consagrada e teve erros e acertos. "Match Point", "Vicky Cristina Barcelona" e "Scoop - O Grande Furo" fugiram bastante do convencional, mesmo não agradando tanto o público geral. Já "Meia Noite em Paris" e "Blue Jasmine" mostrou que a soma de um bom elenco e roteiro inspirado resulta em gols de placa.

Em "Café Society", Allen retorna ao seu próprio umbigo e faz o que sabe de melhor: falar de si mesmo. A trama do filme nada mais é do que uma síntese da própria vida do diretor, um jovem que se muda de casa para tentar uma vida como escritor e diretor de cinema. Apesar de em "Café Society" os atores parecerem trabalhar em modo automático (talvez refletindo o próprio trabalho de Allen), o roteiro, o figurino e a reprodução da década de ouro do cinema norte americano é recompensador.

"Café Society" é um filme light, sessão da tarde. Apesar disso, ele exige um poco do espectador, afinal ele fala para aquele tipo de cinéfilo que conhece quase tudo sobre a história do cinema dos EUA, fazendo referências e citando personagens históricos. Contudo, o filme serve como entretenimento e romance, mesmo com um Allen em piloto automático.

NOTA: 7,0


quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Festa da Salsicha


As animações da Disney e Pixar são sucesso absoluto nos cinemas. Não só o público infantil também o adulto busca os cinemas para acompanhar os filmes do gênero. Não a toa essas produções estão cada vez maiores e dialogando com os dois públicos, muitas vezes ao mesmo tempo. "Festa da Salsicha" é uma grande sátira politicamente incorreta do gênero produzida por Seth Rogen, mas que não foge dos padrões já estabelecidos. 

Em um supermercado, os alimentos vivem e interagem imaginando que os humanos que fazem as compras são deuses. Eles cultuam e celebram cegamente os deuses, imaginando que um dia serão escolhidos e viverão no paraíso das comidas. Frank (Seth Rogen) é uma salsicha que sonha ir ao paraíso e viver com sua namorada. Mas um dia Frank descobre a terrível verdade sobre os humanos e tenta salvar seus amigos antes que eles sejam devorados. 

"Festa da Salsicha" funciona como uma grande piada entre amigos. Pra isso, Seth Rogen reuniu uma constelação de atores e amigos para dublarem os principais personagens. Jonah Hill, Michael Cera e James Franco são alguns dos nomes. Além da dublagem, todo o roteiro e caracterização dos alimentos remete aos atores. Muito do que o espectador verá em "Festa da Salsicha" já foi visto em outros filmes dessa turma.

Então, não espera nada mesmo que piadas escatológicas, misoginia, humor negro, piadas com religião. Alias, o foco religioso e sexual é o fio condutor de todo longa. Como as piadas vem em excesso, algumas acertam em cheio, outras nem tanto. Há uma cena logo no início, quando é feita uma referência a "O resgate do soldado Ryan" que é genial. 


"Festa da Salsicha", apesar de ser irônico aos filmes da Pixar/Disney, segue a mesma fórmula ao contar a história. O diferencial são as piadas e mau (bom?) gosto e o politicamente incorreto. Para quem curte essa turma de Rogen é um prato cheio e diversão garantida. Para quem não curte o filme é mais do mesmo do gênero.

NOTA: 7.5











segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Doutor Estranho


Enfim chegamos ao último filme de super-heróis de 2016, num ano recheado de coisas boas e outras bem sofríveis. Contudo, que bom que o melhor ficou para o final. "Doutor Estranho" é uma aposta ousada da Marvel que, mesmo sem fugir da sua "fórmula mágica", dá muito certo e eleva o nível de produção cinematográfica e efeitos especiais. 

Stephen Strange (Benedict Cumberbatch) é um médico cirurgião dos mais requisitados e talentosos. Sua arrogância e humor sarcástico fazem com que sua relação com as pessoas seja delicada e conturbada. Após sofrer um sério acidente de carro, Strange sofre graves lesões pelo corpo e busca na sabedoria budista a cura para sua dor. Mas, nessa jornada, Strange vai conhecer mistérios além da compreensão e uma batalha envolvendo multi universos e auto conhecimento.

Apesar de encontrarmos aqui os velhos clichês da Marvel (piadinhas + ação frenética + piadinhas), "Doutor Estranho" tem um trunfo na manga para se diferenciar dos outros filmes da franquia "Os Vingadores": A magia! Isso dá liberdade para o diretor Scott Derrickson explorar muito do cinema... e ele consegue. As viagens astrais e pela consciência dos personagens é uma das coisas mais lindas e psicodélicas já produzidas pelo cinema. Os efeitos especiais são arrebatadores e, com certeza, renderá um Oscar pra Marvel. 

Mas "Doutor Estranho" não sobreviveria somente de efeitos. O roteiro, apesar de raso, aponta para questões misticas interessantes. Só que o que segura mesmo a onda é o excelente elenco. Irretocável, Benedict Cumberbatch é a personificação do Doutor Estranho. O ator consegue imprimir um pouco de seu Sherlock Holmes da série de tv, misturado com o sarcasmo de "Dr. House". Tilda Swinton está belíssima como a anciã e conduz as atuações com suavidade. 

"Doutor Estranho" pode, sim, ser considerada uma das melhores experiências da Marvel. Desde que o espectador assista na maior tela possível e com som de primeira. Visto nas telinhas, daqui alguns meses, talvez a experiência não seja a mesma. Mas é interessante a possibilidade do que a Marvel pode explorar com este universo proposto. Espero que ousem ainda mais.

NOTA: 8,5



















quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Black Mirror - Temporada 3


Agora sob as asas da gigante Netflix, a série britânica "BlackMirror" retorna após duas temporadas de sucesso e um episódio especial de natal. A série, cancelada pelo canal de origem, ganhou força quando o conteúdo foi disponibilizado pela própria Netflix. O resultado foi uma excelente terceira temporada e a esperança de novidades em 2017. 

Nesta temporada, "BlackMirror" ganhou o dobro de episódios. Agora são seis. Contudo, elas seguem o mesmo padrão e contam histórias independentes uma da outra. O fio condutor dos capítulos é a discussão sobre como a sociedade pós-moderna encara as relações humanas, num futuro não tão distante, distópico, onde a tecnologia dita as regras na forma de se comunicar, amar, na guerra e na política.

Em "Nosedive", vemos a história de uma garota imersa numa sociedade onde a aceitação virtual entre as pessoas é mais importante do que viver. Em "Playtest", um jovem viajante aceita ser cobaia de um misterioso jogo em realidade virtual, que promete revolucionar o mundo dos games de horror. "Shut up and dance" mostra os perigos de se expor na internet e como a vida pode ser manipulada virtualmente. "San Junipero" mostra as relações conflituosas das pessoas em uma jornada de vida, morte e amor. "Me against fire" apresenta um futuro em guerra onde as aparências enganam. E "Hated in nation" encerra a temporada, com o maior episódio de todos e uma história de crimes, investigação e tecnologia. 

"BlackMirror" é, definitivamente, uma das melhores coisas para se ver na tv hoje em dia. Se com o aumento da quantidade de episódios, e com o padrão Netflix já dando as caras em suas séries, a qualidade entre eles oscila um pouco, ainda assim a discussão que cada episódio desperta já vale a conferida. Os roteiros são excelentes e prendem a atenção mesmo com toda estranheza. Não a toa, grandes atores do cinema e da tv participam dessa temporada e muito bem.

Se "BlackMirror" não é uma série fácil pelo conteúdo e referência filosófica e sociológica (por vezes remetendo Marx, Bauman e Nietzsche), o ritmo, a trilha sonora nerd, o elenco estelar e a filmografia caprichada atraem o grande publico que quer deixar de lado um pouco as baboseiras (divertidas) dos filmes e séries de super heróis.