O discurso sobre representatividade está inserido cada vez mais na pauta das discussões entre jovens e adultos, que, carregados pelas incontáveis mudanças no pensamento social, não conseguem mais dar as costas para assuntos delicados. Os meios de comunicação, claro, aproveitando o gancho popular, usam de seus artifícios midiáticos para fomentar a discussão nas redes sociais e bater recordes de audiência. A Netflix é uma das que mais identificou essa questão e vem apresentando textos polêmicos em suas séries, como foi no caso de "13 Reasons Why",abordando o suicídio de adolescentes, e "Sense 8", ao debater sobre a identidade de gênero e sexualidade. Agora, em "Dear White People" o assunto é racismo. Vamos analisar.
A série conta a história de uma universidade nos EUA onde noventa porcento dos estudantes são brancos. A comunidade negra é separada em castas em certos pontos do campos, apontando para a notória divisão social e racial que permeia não só o ambiente universitário, mas também social dos EUA. Certo dia, os alunos brancos dão uma festa temática de Halloween, onde a maioria se fantasia de ídolos negros da música pop. O problema é que a caracterização chamada "blackface" (quando pessoas brancas pintam o rosto de preto para imitar pejorativamente uma pessoa negra) acende o estopim da tensão racial no campus. Agora, os alunos negros tem de se unir para, além de fazer suas vozes serem ouvidas na universidade, resolver suas próprias diferenças dentro da comunidade.
A Netflix escolheu abordar essa questão de forma mais leve, utilizando humor e sarcasmo. Dessa forma ela navega em mares mais calmos ao exagerar nos estereótipos tendo como resguardo uma licença poética do humor. Por um lado, como produto midiático, essa escolha suaviza esse tema delicado. Apesar de apontar em todas as feridas, ela não gera tanta polêmica, como no caso de "13 Reasons Why". Ainda falando sobre estética, a cinematografia aqui é perfeita. Fotografia, trilha sonora, o uso das cores, enquadramento. A produção consegue, mesmo que pareça impossível, deixa o elenco negro ainda mais bonito.
Diversos tema são abordados aqui. Racismo de brancos para com os negros, opressão policial, o racismo entre negros norte-americanos para com negros provindos de outros países. As formas de luta e maneiras diferentes de lidar com o racismo de cada personagem é um dos pontos mais interessantes. Cada personagem tem sua maneira de combate, que vai de ativismo mais violento ao fato do negro que se "infiltra" na sociedade branca para se sentir como um igual.
E justamente essa suavidade ao abordar a questão é que azeda o molho nos últimos episódios. Se a primeira parte de apresentação dos personagens é rica e divertida, conforme a trama se afunila alguns problemas aparecem. O núcleo jovem sofre por falta de carga dramática. Às vezes temos a sensação de vermos uma peça de teatro amadora.
Contudo, apesar de alguns deslizes, "Dear White People" é necessária para que, mesmo servindo como um pontapé inicial, insira os mais jovens na questão racial. Outro ponto positivos são os capítulos curtos, com no máximo trinta minutos de duração. Ótimo para uma "maratona", haja vista que, devido a falta de atores com mais "punch", a série poderia se tornar massante.

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